Livro inédito escrito por Fernanda Young quando tinha 17 anos pode ser antecipado
Fernanda Young em Paraty, em 2018: dois livros inéditos Foto: Marcelo Saraiva Chaves / Agência O Globo
Morta na madrugada deste domingo, aos 49 anos, após parada cardíaca decorrente de uma crise de asma , a escritora, atriz e roteirista Fernanda Young entregou há um mês os originais de seu novo livro para a editora Leya. Com o títitulo "Posso pedir perdão, só não posso deixar de pecar", sugerido pelo marido Alexandre Alexandre Machado e a editora e amiga Eugénia Vieira, que também estimularam a autora a publicar, a obra tinha o lançamento previsto para novembro, mas pode ser adiantado.
Autora de 14 livros, Fernanda procurou há cerca de um ano a LeYa Brasil, editora de seu último livro, "Pós-F.: Para além do masculino e do feminino", de 2018, para a publicação de um grande romance, na qual ela iria rever diversas fases de sua carreira. No processo, ela encontrou os originais inéditos de seu primeiro livro, escrito aos 17 anos e nunca publicado, o que mudou completamente os seus planos.
— Há uns quatro meses, enquanto trabalhava neste grande romance, que chamávamos de "O livro", ela pediu para interromper momentaneamente a escrita porque sentia que precisava refletir sobre vários pontos de sua carreira autoral. Foi neste momento que ela encontrou este primeiro romance datilografado, escrito aos 17 anos — conta Leila Name, diretora geral da LeYa Brasil. — Ela nos disse que, num primeiro momento, achou engraçado, como se fosse uma pretensão juvenil. Mas relendo o texto, viu que muito da autora que ela se tornou já estava ali, o olhar sobre as questões femininas, o corpo da mulher e as imposições que ele sofre. Ela retrabalhou o romance e nos entregou há cerca de um mês.
Foto do amigo Bob Wolfenson, que a fotografou para a revista 'Playboy' Foto: Bob Wolfenson/Divulgação
Além de "Posso pedir perdão, só não posso deixar de pecar", a LeYa
Brasil também trabalha nos originais do projeto anterior, considerado
praticamente concluído pela editora.
— Ela nos entregou um material de fôlego, umas 300 laudas, vamos nos
debruçar neste texto agora. Fernanda me disse ter pensado em não
escrever mais, mas que ao encontrar o primeiro livro ela se reencontrou
como escritora — lembra Leila. — Ela estava questionando o peso que
passou a sentir como autora, e naquele primeiro texto encontrou a leveza
que precisava. A Fernanda de 17 anos anos acabou salvando os dois
livros.
PATRICIA KOGUT
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Polêmica, engraçada, talentosa, Fernanda Young era tudo isso e vai fazer falta na televisão
Ainda impactada pela notícia da morte da escritora, Leila lembra de sua
participação em uma sessão de autógrafos na Feira Cultural LGBT na Praça
da República, em São Paulo, em junho:
Capa de 'Pós-F.: Para além do masculino e do feminino', lançado no ano passado Foto: Divulgação
— Ela estava ali representando exatamente o que ela escreve, que você
não precisa ficar presa a um papel para defender o que acredita. Ela
demonstrava que é possível ser mãe de quatro filhos, ter um casamento de
20 anos, e abraçar todas as questões que vão além deste lugar. Ela era
essa transgressora que não aceitava, inclusive, que isso a limitasse a
um personagem.
Leia abaixo um trecho inédito de "Posso pedir perdão, só não posso deixar de pecar": Saímos da igreja e eu me sentia culpada. As palavras do pastor Ortiz
me martelavam a mente, eu sentia como se sempre estivesse falando com
deus para ter os seus poderes, usando Jesus como uma cartola de mágico. Meu pai ia na frente dando suas opiniões sobre o sermão, mamãe
calada — demonstrava interesse como se Papo soubesse a grande verdade. Eu não conseguia escutá-lo, estava perdida em minha auto-piedade,
pois queimaria nas trevas do inferno em breve. Sim, eu deveria pagar com
a vida pelo desleixo que tive com o senhor. Meus pensamentos me puniam e eu me via cada vez mais infeliz e
desgraçada, enquanto isto minha irmã caçula cantava baixo uma música do
anjo que se chamava solidão. Meus pés ardiam, o suor descia em grosso filetes, tudo estava tão
seco, a voz de Papo, a canção de Alice, o silêncio de mamãe, a minha
dor. Eu comecei a sentir uma tonteira e a ficar gelada, deus estava me castigando. Quando acordei estava em minha cama. Demorei um pouco para me
situar, olhei para Al e ela dormia leve. Em sua boca entreaberta
brilhava sua saliva infantil. Levantei-me, mas logo voltei para a cama, eu não queria ser flagrada
no corredor, eu não queria ser abordada pelo fato ocorrido, sentia
fome, mas todos faziam sua sesta rotineira. Demorei um pouco a retornar a dormir e sonhei com deus, Jesus e o
espírito santo. O primeiro era como o meu avô do sul, pai de Papo, o
segundo era como no quadro que tinha na sala de jantar e o terceiro era o
carteiro com olhos de mel que vinha de quinze em quinze dias trazer o
jornal da cidade mais próxima. Acordei e me assustei com mamãe que ao lado bordava algo que não dei atenção. Me arrependo de não ter dado valor a este detalhe. — Não precisa se preocupar minha filha — odeio ser chamada assim —
pensamos em chamar o médico, mas quando olhei seu vestido — mostrou o
vestido —e o vi sujo, bom, eu pensei: a dona menstruação visitou minha
Nina. Não precisa se preocupar, aconteceu quase o mesmo comigo, o seu pai
está orgulhoso e foi comprar um vestido de moça para você e depois
passará na casa dos Mendes para comemorar — passando a mão em meus
cabelos molhados. — Irei lhe preparar uma sopa, você deve estar com
fome. Disse-lhe que sim só para que me deixasse sozinha, e então chorei de
vergonha e depois deste dia nunca mais brinquei com os filhos dos
Mendes. Voltei a ter contato com eles somente quando aceitei desposar o
mais velho, mas isto é uma história que ainda irei cintar em outro
momento, com detalhes. A vergonha de ir à igreja ia crescendo a cada dia da semana, minha
culpa se transformava em ódio por deus, seu filho, espírito santo e
principalmente pelo pastor Ortiz, que almoçava lá em casa de vez em
quando. Ele era convidado pelo Papo que mandava nos arrumar como se fossemos
à missa. Tínhamos que beijá-lo a mão. Alice ficava esbaforida com a
presença do pastor, achava que ele era o espírito santo. Quando lhe disse que o achava com cara de chupeta, correu para o Papo e contou-lhe chorosa: — Papo! Nina disse que o pastor tem cara de chupeta com face! Atualmente eu sei o que queria dizer, ele parecia um testículo com formas moldáveis. De sábado para domingo eu quase não dormi. Quando amanheceu, Al
eufórica penteou o cabelo cantando a música do anjo: “Se esta rua, se
esta rua...”
Fonte: https://epoca.globo.com Por Nelson Gobbi
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